
A PEDRA DO RAIO (segunda parte)
Passaram-se muitos e muitos anos (do relatado na primeira parte) e, já residindo eu no sertão, agora denominado roça, no município de Natividade da Serra, próximo ao bairro de Palmeiras, alguns quilômetros distante da crista da Serra do Mar e do Corcovado (o de Ubatuba), num sítio, eis que um belo dia Seu Dito (esse, um outro Seu Dito, diverso de aquele Seu Dito da primeira parte), traz-me uma pedra dizendo: “achei uma pedra do raio”.
Seu Dito (esse, o atual Seu Dito) é natural da região, uma década ou pouco mais em anos mais jovem que eu. Não tem estudo; tem vivência. Da roça, do trabalho. É um pouco assustado. Só porque encontrou por acaso, por acaso não, viu uns urubus e sentiu um cheiro de carniça e foi ver de quem era o boi, ou vaca, morto numa barroca à beira da estrada — aqui pertinho do sítio — e, acabou descobrindo um par de sapatos, vestidos; não quis saber mais de andar sozinho por ali. Ao que saiba não se descobriu a identidade do falecido, apenas que foi ajudado no seu morrer. Algum bando facinoroso achou bom lugar para descarte.
Mas, voltemos àquele dia: “achei uma pedra do raio”.
E não só falou como mostrou-ma (vide foto), contando a mesma história do outro Seu Dito (o da primeira parte): “caía junto ao raio, partia a árvore e se afundava no chão, vindo a aflorar após muitos e muitos anos.”
Era realmente uma pedra, polida, algo gasta, achada durante preparo de uma cova. Era uma mão-de-pilão, em pedra. Logo vi que era um achado de objeto fabricado pelo homem, possivelmente ou até pré-histórico. Guardei-o e a continuidade da história deste achado conta-lo ei numa terceira parte? O que agora desejo enfatizar é: a pedra do raio!
Contei estes fatos, estes mesmos que os acabei de narrar, a um amigo, professor em Ubatuba, o José Ronaldo, dono e responsável por um excelente blog, o coisasdecaiçara.blogspot, sobre fatos e histórias caiçaras. Numa próxima visita ao sítio trouxe-me ele um volume de Luis da Câmara Cascudo. Se não me falha a memória, Dicionário do Folclore Brasileiro. Resumindo: esta crença, desta maneira mesmo, com algumas variantes e enriquecimento, vem-nos de Portugal desde a época de Cabral!
E ainda vive na visão do mundo, da natureza, de alguns de nossos patrícios, pelo menos os de idade mais avançada e menos conhecimentos formais. Os novos com certeza já não mais assim enxergam, fruto do estudo, celular, internet etc…
Com certeza isso renderia uma defesa de tese em antropologia: a persistência, ainda que residual, em pleno século XXI, de um saber de mais de 500 anos atrás. Esse conhecimento, fruto da observação e sua interpretação da natureza, em breve estará para sempre perdido.
(e.. terceira parte)
Já sabedores do que serdes a pedra do raio, damos continuidade a esta postagem, que versa basicamente o mesmo tema, o raio da pedra do raio, e seus desdobramentos.
***
Numa de minhas férias, não tendo mais o que fazer, e já passada década da descoberta da “minha” pedra do raio – vocês viram a foto! – decidi tentar realizar uma pesquisa sobre a possível origem da mesma. Já sabia, e creio que todos que me leem também o sabem, pois atualmente o Dr. Google é o universitário geral, a tal pedra do raio não passava de uma banal e singela mão-de-pilão, de pedra.
Talvez os mais jovens não saibam o que é uma mão-de-pilão. Adoraria explicar, porém, como às vezes sigo o conselho de amigos, tentarei deixar este texto um tanto mais curto e escorreito, não me delongando ao explicar esta palavra que tão facilmente encontrarão em qualquer dicionário, ou na internet.
E, apenas para deixar o assunto mais interessante, vejam também o significado, digamos, mais popular, outros dirão chulo, de “mão-de-pilão”. No nosso caso o significado é o original e utilitário termo, antropológico. Doutra feita, veja-se também o significado de pedra de Xangô, na ancestral e fabulosa mitologia africana subsaariana.
Dando continuidade ao relato: São Paulo, capital. Mochila, onde se encontrava o tal objeto, que presumia talvez pré-histórico, às costas. Desci a Apiacás, me dirigi à estação do Metrô, baldeação ao trem urbano, final na Cidade Universitária. Uma caminhada a pé e lá estava eu de mochila e tudo no MAE – Museu de Arqueologia e Etnologia.
Porteiro. Fui muito bem atendido por uma arqueóloga, madura e bonita, cabelo pintado, gentilíssima, que examinou o artefato e, “sim, é uma mão-de-pilão. Sim, sim, é importante. Não, não, não seria possível no momento pesquisar, entenda, arqueologia é uma ciência cuja pesquisa em campo é cara. Muitos interesses, sim, até no Egito há arqueólogos brasileiros. Porque não se dirige a uma entidade mais próxima do local da descoberta?”
Universidade Braz Cubas, Mogi das Cruzes. Possui um núcleo de arqueologia, fez um bonito trabalho em Pindamonhangaba. Atendido por uma jovem e belíssima arqueóloga. “Não, não. Tente num lugar mais próximo. Jacareí.”
Jacareí, sim, uma arqueóloga. Falei por telefone. É funcionária da prefeitura de Jacareí, então, “não seria possível um trabalho para outro município, salvo exceções.” Sugeriu conversar com o responsável pelo IBAMA em São Luiz do Paraitinga.
Lá fui: alto, louro, inteligente, simpático e sincero. Já o conhecia, de vista. Apreciou muito o achado, disse de suas pretensões e desejos e de como é difícil trabalhar neste nosso país, com pouca verba, pouco pessoal e muita burrocracia. Com dois rs mesmo.
Decorrido mais de um ano: “tentou”, me disse, e nada conseguiu.
Continuo, pois, como fiel depositário desta pedra, que pertence ao governo da União. Contarei a vocês, proximamente, mais sobre arqueologia, vivenciada na prática, desta nossa região. Me aguardem.