A PEDRA DO RAIO (Primeira parte)

 

Estávamos eu, Pardini e o Seu Dito iniciando nossa subida ao Corcovado. Não o carioca, mas o da Serra do Mar, o que domina o horizonte à oeste, no litoral de Ubatuba.

     Quem não conhece Ubatuba não conhece o Corcovado, que óbvio! Mas não sei se todos que conhecem Ubatuba, seu litoral, já prestaram atenção aos contornos da serra, e àquela mole de pedra imponente, que se destaca, para onde convergem os olhares e as vontades. Visto do centro da cidade, por exemplo do descampado do aeroporto, apresenta-se como enorme massa em ângulo reto sobranceiro à linha geral que, variando de altitude para mais ou menos, oferece o limite superior desta cadeia montanhosa. Se o turista curioso procurar a rodovia litorânea e dirigir-se ao sul, ao realizar a descida do retão que termina na Praia Dura, terá uma visão muito mais próxima dessa pedra, que desse ângulo se engrandece ainda mais, tornando-se majestosa. Dependendo do tempo, se nublado, mais ou menos, ou se com céu límpido, as impressões que sua visão nos dá variam, cada uma mais bela que a outra, não saberia dizer qual preferir. Continuando este passeio, em direção ao limite sul do município de Ubatuba, veremos outro perfil do Corcovado, afilado, como se fosse a proa de gigantesca nau, nau de pedra.

     Era, a minha, e a do Pardini, que muito rapidamente comprou a ideia da escalada, a primeira vez que empreendíamos tal. Depois desta subi diversas vezes o Corcovado, por diversas trilhas, com diversas companhias, em diversas situações. Após a vigésima subida parei de contar. Era meu destino de peregrinação. Religioso mesmo.

     O Seu Dito era nosso guia. Já conhecia o caminho. Quem era, é, o Seu Dito? Um caiçara, natural de Natividade da Serra, que desde tenra meninice se acostumou, por necessidade e modo de vida, ao sertão. E imagine como era o sertão há 60 anos. Das muitas histórias que me contou, não sei se de esta vez ou em outra ocasião: com idade de 10, ou 12 anos, foi encarregado por seu pai – ou foi sua mãe? – ir avisar em Caraguatatuba do falecimento de uma parente. Naquela época não havia a Rio-Santos. Não havia estrada; portanto não haviam ônibus, caronas, meio de se ir de bicicleta… não havia meios. E como fez? A pé, subindo e descendo morros no meio do mato. De Ubatuba a Caraguatatuba. Com aquela idade.

     Naturalmente era o Seu Dito, agora no passado, caçador. Por necessidade e depois por gosto. Não, não era, não é, um ser brutal, ou bruto. Era e é extremamente gentil, educado, não aquela educação escolar, que não a tem, mas aquela de berço, a que tanto falta hodiernamente. Educadíssimo e seriíssimo, que não lhe venham com brincadeiras de mau gosto ou que ofendam sua moral.  Não tem e não tinha o gosto em matar. Gostava de caçar. De passar dias enfurnado na selva ainda hoje pouco frequentada, com alimentação e vestes restritas, enfrentando as possíveis intempéries, possíveis acidentes, o ver a onça em seu lar, face a face. Não caça mais, por idoso e por ter-se convencido que rareiam os animais que em sua juventude abundavam.

     E Pardini? Dileto colega de estudos e de profissão, residente na Penha e amante de São Paulo. Adepto de correr, para se manter saudável. E corria. Inteligente, esforçado, familiar. Algo gozador, perspicaz. Ainda o é, tudo isso. Meu amigo. 

     Embora corresse, não costumava subir montanhas. Subir é o termo exato. Subia-se ao Corcovado; não se o escalava. Possui, mesmo, um paredão rochoso que acredito dar coceira de vontades em alpinistas. Mas não fiquei sabendo de algum que o tenha escalado, por este paredão vertical de centena de metros. Embora tenha visto no cimo um grampo de alpinista incrustado na pedra. Talvez alguém tenha tentado um rapel?  

     Mas, como dizia, estávamos eu, Pardini e o Seu Dito, iniciando a subida ao Corcovado, o de Ubatuba. Já tínhamos ultrapassado as discretas várzeas de dois pequenos rios que cortam a mata, andando em fila indiana e ascendendo em um dos contrafortes. Conversando sobre temas diversos. O folego era muito bom, éramos jovens. Seu Dito nos mostrava seu conhecimento da mata, o nome de algumas árvores, praticamente todas com raízes tabulares que o solo é pouco profundo, logo atingindo a pedra, pedra de origem antiquíssima, pedra podre. A nutrição da vegetação era, na verdade, auto-nutrição: as folhas caídas e a umidade formavam uma grossa camada em degradação com odor característico de podridão: era a comida destas árvores e plantas, misturadas com o solo superficialmente desintegrado.

     Lembro que uma das curiosidades que Seu Dito nos mostrou foi de planta pouco portentosa, na verdade matinho rasteiro à beira de córregos e que, mascada sua raiz, dava nítida sensação de formigamento na mucosa oral: dizia que usada pelos caiçaras como anestesia em caso de dor de dente; não acredito na anestesia mas que a sensação era de, era.

     Mas, e então, não lembro o motivo, surgiu o assunto, titular, desta narrativa. A pedra do raio. Com certeza conversávamos sobre árvores caídas, especialmente árvores caídas por ação de raios. Bom, vocês sabem que raios podem derrubar árvores, às vezes calcina-las.

     E Seu Dito: “… quando cai o raio, cai junto uma pedra, a pedra do raio, e é o que corta e derruba a árvore atingida…”, “esta pedra tem um formato parecido com a lâmina de um machado, o que lhe dá este poder de partir a árvore”.

     Pardini imediatamente tentou esclarecer, usando naturalmente palavras coloquiais, a verdade científica. Mas logo atalhei assertivamente: “Se Seu Dito diz que é assim, assim é”.  Isso, ou algo semelhante. Meu raciocínio, intuitivo, foi – se assim acredita por que não? Não é ele quem sabe se virar no mato, sobreviver em caso de necessidade? Lá na cidade, na academia, a verdade é outra, certamente o é; aqui no sertão por que não dar-lhe a razão?  Pardini logo entendeu e a conversa fluiu por outros temas não controversos.

     Chegamos ao pico, acampamos à moda dos caçadores, com teto de folhagens; foi tudo lindo, a paisagem, a noite, a descida. (Continuará, em sua segunda parte)

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