
Estando em Jambeiro desfrutando a hospitalidade do Beto, recebo de presente de sua maravilhosa esposa, Mariângela, um livro, “Mistérios do Vale”, de autoria de Sônia Gabriel. Relata, em linguagem simples, lendas, folclores, e mistérios, praticamente um para cada um dos municípios de nossa região, Alto e Médio Paraíba paulistas. Achei-o bem escrito, porém, para mim, pouco interessante, por já conhecer grande parte das histórias. Na verdade, critiquei-o um pouco, por “fixar” certos “mistérios” a determinada localidade ou município quando, na verdade, são histórias pertencentes à ampla geografia.
Mas, sou muito grato à Mariângela, e claro à autora, por uma dica, até então de meu completo desconhecimento. Sempre, e em tudo, se aprende algo. Desta feita um nome: EUGÊNIA SERENO, mencionada em relação à São Bento do Sapucaí. Nas poucas linhas referentes à esta autora sambentina (outro vocábulo, onomástico, que desconhecia) senti fluir um mistério, algo poderoso.
Fui pesquisar. Acabei adquirindo na Estante Virtual a obra, única, desta autora: “O Pássaro da Escuridão”, por acaso uma terceira edição; aprendi, depois: teve 5 edições, uma diferente da outra, numa elaboração e aperfeiçoamento intermináveis — embora, uma observação, feita a mim por Rita Elisa Seda, durante uma feira literária em Taubaté: a última edição, a quinta, não teria valor, pois foi revista e “corrigida” pelo marido de Eugenia Sereno, após o falecimento desta.
Junto, “Os Deuses Governam o Mundo” de Mário Graciotti, marido de Benedicta Rezende Graciotti (nome de batismo, ajuntado do sobrenome do esposo, de Eugênia Sereno); médico, escritor e um dos fundadores do Clube do Livro, que editou inúmeras obras relevantes de autores nacionais e estrangeiros e incentivou a leitura a preços razoáveis em nosso país. Coisa das décadas de 50/60 do século passado; lançou a público, por exemplo, obras de Willy Aurelli, jornalista, caçador e explorador de nossos rincões, à época, mais bravios. Esplendor Selvagem foi uma das primeiras obras que dele tomei conhecimento, pelo Clube do Livro; e foi quem descobriu a escritora, radicada em Ubatuba, Idalina Graça, a “Solitária de Iperoig”. Desgostei-me com o Clube quando tomei conhecimento de que expurgava certos textos quando, a critério de alguém, acreditava que tais textos poderiam ferir a moral, os bons costumes, da família brasileira. Ódio mortal à censura!
Outro escrito que adquiri nesta exploratória sobre Eugênia Sereno foi, e que li primeiro, “Eugênia Sereno: A Menina dos Vagalumes (resgate folclórico do Paraíba ao Sapucaí)” de autoria de Rita Elisa Seda e Sônia Gabriel. Uma biografia, pobre, e muito rica. Pobre, pois de dados biográficos, no que diz respeito à vida e fatos e acontecimentos que se referem à Eugênia Sereno, traz muito pouco: poderiam ser grafados em poucas das 300 páginas que compõe o volume. (PS: uma das autoras, ao ler alhures estes comentários, ficou um tanto abespinhada por ter eu dito que “pobre”, mas não foi uma crítica, apenas a constatação de que, de Eugênia, não temos uma riqueza de detalhes, tais como, por exemplo, numa recente biografia de Rasputin, um tijolo, até maçante). Rica, pois, na falta, creio, de abundância de dados biográficos palpáveis, as autoras enveredaram por uma profunda pesquisa de sua personalidade, de sua psicologia, contidas em sua obra única, ganhadora, na época, de um Jabuti. Devem tê-la lido centenas de vezes, em cada uma das edições.
Pássaro da Escuridão: eis a obra de Eugenia Sereno, obra densa, não muito fácil de leitura, pesado, porém acenando fascinação e mistério, no conteúdo e na forma. Recebeu críticas mui favoráveis, inclusive do meu ídolo Paulo Rónai, e foi ainda comparada, a autora, a Graciliano Ramos, por sua escrita inovadora e poeticamente musical.