
ANTÔNIO GOMIDE EM UBATUBA
Transcrição, na íntegra, de gravação de entrevista exclusiva, à respeito de seu contato com o pintor Antônio Gomide, realizada em 22 de Novembro de 2016, em Ubatuba, com Dalva Maria dos Santos Smidi(1) ; foi já publicada no jornal Matéria Prima , de Taubaté, em outubro de 2022. Feito edição mínima para facilidade de leitura, mantendo-se linguagem coloquial.
— D. Dalva, bom dia!
— Bom dia!
— Fiquei sabendo, através de uma prima(2) do Antônio Gomide, que a senhora chegou a conhecê-lo pessoalmente, aqui em Ubatuba, e que inclusive cuidou dele; então, procurei a Sra. por causa disso, para que a senhora tentasse contar pra nós toda a experiência, toda a vivência que teve com esse pintor, esse escultor, brasileiro. O que a senhora lembra dessa convivência?
— Na época eu já havia me casado e tinha dois filhos e, aí, a irmã dele me procurou, por precisar de uma pessoa para cuidar dele. Daí, eu saí da minha casa e fui morar numa casinha atrás da casa dele(3) onde eu o tratava… fazia comida, tudo, porque ele estava começando a ficar cego.
Então… ele tinha, ele fez, todas as esculturas de uma… de todo o candomblé! É a cabocla Jupira, é a cabocla Jurema, então, era a coisa mais linda que tinha naquela sala dele, com todas as entidades do candomblé; ele era um escultor formidável: trabalhava eternamente, dia e noite, com aquilo, com aquelas esculturas dele e, apalpando, né? Dizia: “tá bom assim?”, e… “vou fazer assim”, e… “dê uma olhadinha pra mim” e, então, chegou uma época em que ele queria começar a fazer um livro, a escrever um livro, e aí a irmã dele me levou pra São Paulo, para uma escola lá, onde eu aprendi o Braile e trouxe toda aquelas… todas as…livros! Tudo, que eu pudesse estar corrigindo e ensinando ele a.. porque pra gente que enxerga é muito fácil o Braile, difícil é pra quem não enxerga. Então, eu fui ensinando e ele começou a fazer o livro dele; não sei se terminou.
Eu fiquei acho que um ano e meio, dois anos, lá com ele e depois ele foi ficando, ficou, doente, e foi pra São Paulo duas vezes e depois ele foi de uma vez, que a gente não viu mais. Mas ele era uma pessoa excelente, um comportamento maravilhoso, uma pessoa íntegra sabe? Olha, uma pessoa de se admirar mesmo. Ele foi um dos maiores escultores e pintores da época; foi, viu? porquê a dedicação dele era demais! Quem ficou com os quadros e coisas dele, na época, foi a irmã, não sei se era Teresinha Gomide, uma coisa assim. Eu sei que ela… não me lembro mais, mas ela ficou, levou tudo… levou pra São Paulo todo o trabalho dele.
— De acordo com aquela crítica de arte que estudou ele (Elvira Vernaschi), ele morreu aqui em Ubatuba, em 1967. A senhora lembra disto?
— Não… 1967?
— É
— Não, ele não morreu aqui.
— Não morreu aqui?
— Não. Ele foi para São Paulo.
— Ah! tá! Quer dizer que ele não chegou a falecer aqui.
— Não, ele estava muito mal e a irmã dele levou-o pra São Paulo.
— Ah! tá! Porque assim… dá a impressão que ele faleceu aqui, que morreu aqui.
— Não; não me lembro desse fato.
— Que a senhora saiba…
— Ele ficou doente e foi levado.
— Então, provavelmente deve ter falecido por lá.
— É!
— Ele ficou doente e foi levado.
— Então, provavelmente deve ter falecido por lá.
— É!
—A senhora ficou quanto tempo com ele, mais ou menos?
— Mais ou menos um ano e nove meses… uns dois anos.
— Não chegou a ficar o tempo todo com ele?
— É… porque eu morava na casa, morava numa casinha atrás, eu, meu marido e meus três filhos, então, tinha contato com ele o tempo inteiro, né… porque ele dependia também… fazia almoço, jantar, e o que ele precisasse.
— Na época a senhora tinha quantos anos, mais ou menos?
— Eu tinha 18.
— Dezoito anos na época.
— É.
—A senhora só mudou de lá depois que ele faleceu?
— Só mudei de lá depois que levaram ele pra São Paulo.
— Ele não voltou mais…
— Não voltou mais.
— Como ele era no trato com as pessoas, com a senhora, com seus filhos… como é que ele era?
— Era uma pessoa calma, tranquila, muito bom de espírito, sabe… entendia! Muitas vezes as crianças entravam, né… lá, e ele entendia, e então eu acho que…
— Ele, mesmo então praticamente cego, continuava trabalhando?
— Continuava, continuava tentando a fazer as esculturas, e escrever, já aí nessa época a escrever, escrever o livro.
— A senhora lembra da época lá, se ele tinha algum contato, alguma amizade com pessoas daqui de Ubatuba?
— De Ubatuba eu não me lembro não, viu?
— Não?
— Não, ele tinha contato com as pessoas de São Paulo, vinham muitos atores, artistas, tudo na casa dele. Vinham visitar, ficar no final de semana, naquela época. Fim de semana eles vinham todos visita-lo!
— Essa casa já era dele antes dele vir morar aqui, ou a senhora não sabe disso?
— Isso aí eu não sei dizer, mas era uma casa ampla, grande, janelas grandes, portas altas, como eram as casas antigas.
— Será que essa casa ainda existe?
— Eu não sei dizer pra você, que eu saí também de lá, vim morar aqui pra cidade, então não sei dizer.
— Depois da morte dele, não teve mais nenhum contato com a família?
— Não tive nenhum contato com eles, mais.
— Também a senhora não sabe se alguém aqui de Ubatuba tem alguma obra que ele tivesse executado?
— Não sei, não sei dizer, se tem não sei.
— D. Dalva, a senhora estava me falando que ele nadava? Conta, como é que foi isso?
— Então, à tarde, aquele calor na praia da Enseada, né?… aquela praia maravilhosa, e ele gostava muito de nadar e a gente, eu, levava, e ele nadava e ele falava: “me dá a direção, só pra eu não ir muito para o fundo”. Então eu dava a direção, chamava “Aqui! pra cá”! E não sei o que… daí ele vinha certinho, né? Fazia… fazia direitinho, como eu…
— Nadava!
— Nadava muito bem, ele.
— A senhora na época era uma pessoa bastante jovem. Tinha quantos anos quando tomou conta dele?
— Eu tinha de 17 a 18 anos.
— E o seu marido, trabalhava junto, ou não?
— Não, ele trabalhava fora, ele era pescador, pescava com os Makiyama, que ele é japonês.
— A senhora falou também que ele recebia bastante visitas, de artistas de São Paulo, lembra de algum deles?
— Eu lembro da Georgia Gomide (4)
— Deve ser parente?
— Que deve ser parente… é parente dele com certeza, e ela vinha com o pessoal da Globo porque, na época, tava fazendo uma novela até… então eles vinham, estudavam todo o texto lá, e ficavam muitas horas; ele recebia visitas de toda a espécie de São Paulo, de todos os parentes, amigos… então eu não via o Gomide conversando com alguém assim… caiçara, porque também ele já tinha dificuldade, de enxergar, de se locomover.
— Como é que ele fazia as esculturas não conseguindo enxergar?
— Então… ele… aquelas esculturas que ele fez, que, quando eu cheguei lá, ele já tinha todo um… a cabocla Jurema, Iracema… todos os… elementos lá da… da cultura…
— Negra…
— Negra, do candomblé… então ele tinha todas estas esculturas e ele sempre falava pra mim: “Dalva, vamos procurar um caiçara daqui… com todos os traços dos caiçaras, pra eu poder tá fazendo…”. Então, a intenção dele era essa, né… pra poder tá fazendo a escultura assim. Mas ele tinha que passar a… sentir…
— Sentir o corpo!
— O corpo da pessoa, pra poder fazer. E naquele tempo as pessoas sempre… ficam meio assim, né?… pra você ver uma pessoa… então, foi meio, muito difícil, pra eu conseguir pegar um pescador e conversar com ele que ele tinha que… servir de modelo! Hoje todo mundo quereria, se fosse hoje né? Mas antigamente era muito difícil!
— E a senhora, não serviu de modelo?
— Não, não, (rrss) não servi não.
NOTAS:
1 – D. DALVA, atualmente com 80 anos, é figura de proa da boa sociedade ubatubana, conhecidíssima empresária que por muitos anos foi proprietária da Farmácia da Dalva. Por ocasião desta entrevista era Presidente da APAE de Ubatuba. Atualmente divide seu tempo entre Ubatuba e o Distrito de Catuçaba, em São Luiz do Paraitinga, cidade onde seu atual esposo, Sr. Armando Smidi, também mantém empresas de seu grupo.
2 – Trata-se da Sra. MARIA ALICE, artista plástica conhecida em Ubatuba por LILICA, a qual, sendo parente de A. Gomide, não o conheceu pessoalmente. Tive o prazer de apresenta-la a Elvira Vernaschi que ficou sinceramente feliz por este encontro.
3 – Casa essa situada na antiga rua conhecida como dos Ingleses, na praia da Enseada, Ubatuba, atual rua pintor Gomide. Quando Gomide faleceu era prefeito de Ubatuba Francisco Matarazzo Sobrinho, personalidade de escol no mecenato das artes no estado de São Paulo. Transcrevo aqui o Decreto nº 103, de 12 de Março de 1968:
Decreto nº 103, de 12 de Março de 1968
Denomina “Pintor Gomide” uma rua
da Praia da Enseada, neste Município
Francisco Matarazzo Sobrinho, Prefeito Municipal da Estância Balneária de Ubatuba, Estado de São Paulo, no uso das atribuições que lhe são conferidas por Lei,
Considerando que é dever do poder público prestar homenagem aos que se destacaram por uma vida que pode servir de exemplo;
Considerando que o pintor Antônio Gomide, recentemente falecido, inscreveu seu nome entre os dos maiores artistas plásticos do Brasil;
Considerando que “Gomide” escolheu Ubatuba para passar a fase derradeira de sua vida;
Considerando que aqui construiu casa e viveu até o acidente mórbido que o vitimou,
D E C R E T A:
Art. 1º — Fica denominada “Pintor Gomide” a rua que, partindo da estrada Ubatuba – Caraguatatuba, na Praia da Enseada vai até o mar, para onde faz frente a casa onde “Gomide” viveu na cidade de Ubatuba.
Art. 2º — Este decreto entrará em vigor na data de sua publicação, revogadas as disposições em contrário.
Ubatuba, 12 de Março de 1968
Ass.: Francisco Matarazzo Sobrinho, Prefeito Municipal